Se você está procurando como a internet funciona no Sudão, é muito provável que você não esteja planejando férias. Desde abril de 2023, o país está em guerra e quem me pergunta sobre isso é quase sempre pessoal humanitário, jornalistas e sudaneses da diáspora tentando falar com suas famílias. Então, vou contar como é, sem rodeios: o que resta da rede, onde há sinal e onde não há, quanto custa cada opção e o que o Ministério das Relações Exteriores diz antes de você comprar qualquer coisa.
O Sudão hoje não é um destino de viagem: para quem escrevo isto
No Sudão não existe uma solução de conexão confiável: a guerra destruiu grande parte da rede e houve apagões de semanas em regiões inteiras. O realista é combinar um SIM ou eSIM local com o acesso via satélite da sua organização, assumir cortes longos e ter sempre um plano de comunicação alternativo.
Escrevo quase todos os meus guias pensando em alguém que vai sair de férias. Este não. Desde 15 de abril de 2023, o confronto entre o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF) transformou o Sudão em um dos piores cenários humanitários do planeta, com milhões de deslocados internos e refugiados no Chade, Egito e Sudão do Sul. Não é um país para viajar a turismo, e seria desonesto da minha parte publicar aqui um guia alegre de "os melhores planos de dados para sua aventura africana".
Quem busca essa informação geralmente se encaixa em três perfis: cooperantes e pessoal de agências que vão se deslocar, jornalistas que cobrem o conflito e sudaneses fora do país que precisam entender por que estão há três semanas sem notícias de um irmão em El Fasher. Os três precisam da mesma coisa: dados concretos, não manchetes.
Por isso, este guia será bastante diferente dos outros. Vou te contar quais operadoras ainda funcionam, com quais preços reais, onde há cobertura e onde não há, qual o papel do Starlink e em que casos específicos um eSIM ajuda. E vou começar pelo que deveria vir primeiro em qualquer texto sobre o Sudão: as recomendações oficiais. Se você está pensando em viajar, leia-as antes de olhar as tarifas de dados.
Primeiro: as recomendações oficiais do Ministério das Relações Exteriores
Antes de falar de megabytes e operadoras, isto. O Ministério das Relações Exteriores, União Europeia e Cooperação mantém sobre o Sudão o aviso mais alto de sua escala: recomenda-se não viajar para o Sudão sob nenhuma circunstância. Não é um "tome cuidado" nem um "evite certas áreas". É uma recomendação para não ir, aplicada a todo o território.
O Ministério das Relações Exteriores indica que é extremamente perigosa qualquer deslocamento pelo interior do país e desaconselha o uso de transporte público ou privado, recomendando coordenar qualquer movimento com comboios internacionais com segurança.
Se, ainda assim, você for — porque sua organização te designa, porque você cobre o conflito ou porque tem família lá —, a ficha oficial deixa várias coisas claras que convém ter em mente:
- Você precisa de um seguro médico e de viagem internacional que cubra expressamente países em guerra e inclua repatriação. A maioria das apólices normais exclui zonas de conflito.
- É conveniente informar a viagem ao Ministério das Relações Exteriores e se inscrever no Registro de Viajantes, e manter contato durante toda a estadia.
- Não há constância de que os escritórios de registro de estrangeiros continuem operando normalmente, então os trâmites administrativos habituais podem simplesmente não existir.
- Não são aceitos cartões de crédito estrangeiros em nenhum estabelecimento ou caixa eletrônico no Sudão. Isso condiciona todo o resto, incluindo a forma de pagar um SIM.
Consulte sempre a ficha atualizada no site do Ministério das Relações Exteriores e, se for com uma ONG, a avaliação de segurança da sua própria organização, que costuma ser mais detalhada por estado. A situação muda por semanas, não por anos, e qualquer dado deste artigo deve ser contrastado com fontes oficiais antes de tomar decisões.
O que aconteceu com a rede sudanesa desde 2023
Antes da guerra, o Sudão tinha uma rede móvel normal para a região: 3G e 4G nas principais cidades, cobertura razoável no eixo do Nilo e em Cartum, e preços de dados entre os mais baratos da África. Nada extraordinário, mas funcional. Um jornalista podia enviar material de Cartum sem muito drama.
O conflito fez duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, destruiu infraestrutura física: torres, geradores, linhas de fibra e, principalmente, centros de dados. Por outro, as telecomunicações se tornaram alvo e ferramenta de pressão. O corte da conexão tem sido usado deliberadamente como arma, algo que organizações de direitos digitais vêm denunciando desde o primeiro ano.
O episódio mais grave ocorreu em fevereiro de 2024: ataques às sedes das três grandes operadoras do país —Sudani, Zain e MTN— em Cartum deixaram cerca de 30 milhões de pessoas sem conectividade por quase um mês. Um país inteiro desconectado por semanas. Para ter uma ideia do que isso significa: famílias que não puderam saber se seus filhos ainda estavam vivos, transferências de dinheiro móvel (o sistema com o qual muitas pessoas compravam comida) paralisadas e equipes de emergência incapazes de se coordenar.
A conexão começou a se recuperar a partir de março de 2024, em grande parte porque Zain Sudão e Sudani montaram novos centros de dados em Porto Sudão, a cidade na costa do Mar Vermelho que se tornou capital administrativa de fato enquanto as RSF controlavam grande parte de Cartum. Desde então, a rede vive em um equilíbrio instável: é restabelecida em algumas áreas, cai em outras, e nenhuma operadora pode garantir serviço contínuo.
Cobertura por zonas: onde há sinal e onde não há
Esta é a parte mais falseada na internet. Os mapas de cobertura que você verá em sites comerciais geralmente são os de antes de 2023, ou mapas teóricos gerados a partir de licenças. A realidade no terreno é muito mais irregular e depende, além da infraestrutura, de quem controla militarmente cada zona a cada momento.
Resumindo muito, e sabendo que isso pode mudar a qualquer momento:
| Zona | Situação da rede móvel | O que esperar |
|---|---|---|
| Porto Sudão e costa do Mar Vermelho | A mais estável do país; centros de dados operacionais | 3G/4G com cortes; é onde tudo funciona melhor |
| Cartum e área metropolitana | Parcialmente restabelecida, muito desigual por bairros | Serviço intermitente; áreas inteiras sem cobertura |
| Darfur (El Fasher, Nyala, El Geneina) | Grandes áreas desconectadas das três operadoras | Depender de satélite; assumir apagões prolongados |
| Cordofão | Muito afetada, com cortes recorrentes devido a combates | Conexão não garantida em nenhum dia |
| Norte (Dongola, Wadi Halfa, Atbara) | Relativamente menos danificada | Cobertura irregular mas existente nos núcleos |
| Leste (Kassala, Gedaref) | Mais estável que o oeste | Sinal nas cidades, pouco em áreas rurais |
Duas nuances importantes. Primeiro: mesmo onde há antena, o fornecimento elétrico é o gargalo real; se não há diesel para os geradores, a estação base desliga mesmo que esteja intacta. Segundo: a velocidade, quando há rede, é bem pior do que era; muitos usuários descrevem conexões que servem para mensagens de texto, mas não para carregar vídeo ou fazer videochamadas estáveis. Planeje seu trabalho assumindo largura de banda de mensagens, não de streaming.
Zain Sudão, MTN Sudão e Sudani: quem é quem
O mercado sudanês é dividido por três operadoras, e todas as três continuam operacionais, embora com a rede muito afetada. É importante conhecê-las porque qualquer conexão que você use no país — SIM local, eSIM internacional ou até mesmo o Wi-Fi de um hotel — acaba se apoiando em alguma delas.
- Zain Sudão: historicamente a maior em participação de mercado e a que geralmente tem melhor cobertura em todo o país. Subsidiária do grupo kuwaitiano Zain. Foi uma das primeiras a montar infraestrutura alternativa em Porto Sudão após os ataques de 2024.
- MTN Sudão: subsidiária do grupo sul-africano MTN, a segunda em tamanho. Boa presença urbana antes da guerra; hoje com a rede muito fragmentada, principalmente no oeste.
- Sudani (Sudatel): a operadora de origem estatal, forte em telefonia fixa e fibra, além de móvel. Também reconstruiu capacidade a partir de Porto Sudão.
Antes do conflito, as três ofereciam 3G e 4G nas principais cidades com tarifas muito baratas. Hoje, nenhuma pode prometer continuidade de serviço e todas perderam infraestrutura. Qual é a mais conveniente depende exclusivamente de onde você estará: em Porto Sudão e no leste, Zain e Sudani costumam ser a aposta mais sensata; em Cartum, a resposta muda por bairro e o melhor é perguntar a pessoas que estejam lá naquela mesma semana.
Não existe uma operadora "boa" em geral, apenas a que funciona na sua rua. Por isso, muitas pessoas no local usam duas linhas de operadoras diferentes, algo que no Sudão é mais regra do que exceção e que, com um celular dual SIM, é a redundância mais barata que você pode montar.
As quatro opções para se conectar, comparadas
As mesmas quatro vias de sempre — sua linha brasileira em roaming, o Wi-Fi do local onde você se hospeda, um cartão local ou um eSIM — mudam bastante de sentido quando o país está em guerra. Esta tabela resume minha avaliação honesta:
| Opção | Custo estimado | Vantagem | Problema real no Sudão |
|---|---|---|---|
| Roaming com sua linha brasileira | Pode superar 10 €/MB em tarifas fora do pacote | Zero burocracia, funciona ao chegar | Caríssimo; vários pacotes globais excluem o Sudão expressamente |
| Wi-Fi de hotel, base ou escritório | Incluído ou compartilhado | Costuma ser a conexão mais estável se for via satélite | Depende da mesma rede caída; saturado e sem garantia |
| SIM local (Zain, MTN, Sudani) | ~7 SDG o SIM; dados a partir de 333 SDG por dia | O mais barato de longe | Registro com passaporte, pagamento somente em dinheiro, lojas fechadas em muitas áreas |
| eSIM internacional | Tarifa fixa em euros, contratada antes de sair | Ativa do Brasil, sem burocracia ou dinheiro em espécie | Apoia-se nas mesmas redes locais: se não há rede, não há dados |
Observe a última coluna, porque é onde está a verdade incômoda: nenhuma das quatro opções oferece conexão onde a rede está inoperante. A única tecnologia que contorna esse problema é o satélite. Todo o resto compete em conveniência e preço, não em cobertura.
Se você nunca usou nenhuma dessas alternativas e quer entender as diferenças com calma, na comparativa entre eSIM e cartão local eu detalho com mais profundidade para destinos normais. Aqui, concentro-me no que se aplica a um contexto de conflito, que é bastante diferente.
Roaming da Espanha: por que é a pior opção
Comecemos pelo óbvio: o Sudão não pertence à União Europeia nem ao Espaço Econômico Europeu, então o "Roam Like at Home" que permite usar seus gigabytes na França ou em Portugal não se aplica de forma alguma. Aqui você entra diretamente nas zonas mais caras da tarifa de sua operadora, aquele "resto do mundo" que quase ninguém lê até que a conta chegue.
Os números assustam. Fora da UE, as tarifas de dados sem bônus das operadoras espanholas podem chegar a vários euros por megabyte, com casos publicados de até 12 € por MB em zonas distantes. A esse preço, verificar o e-mail algumas vezes ao dia durante uma semana se torna uma conta de três dígitos. Já vi histórias suficientes de contas de milhares de euros ao voltar de uma viagem para insistir nisso.
E há um detalhe específico do Sudão que muita gente ignora: vários bônus internacionais deixam o país fora de sua cobertura. O bônus mundial da Vodafone, por exemplo, é comercializado como válido em todo o mundo fora da UE, mas com uma lista de exceções em que o Sudão aparece junto com Cuba, Líbano ou Tajiquistão. Ou seja: mesmo que você contrate o bônus, no Sudão ele não serve e você passa para a tarifa geral.
Conclusão prática: se você vai para o Sudão, acesse o simulador da sua operadora e verifique o preço exato para esse destino antes de sair. E se o número parece absurdo, é porque é. Desenvolvi o cálculo completo no guia sobre quanto custa o roaming internacional, e nesta comparação você verá a diferença de custo em relação a uma tarifa contratada antecipadamente.
SIM local: preços reais, registro e seus limites
Em condições normais, o SIM local sudanês seria a opção vencedora sem discussão, porque os preços de dados do país estão entre os mais baixos que já vi em qualquer lugar. Estas são as ordens de grandeza publicadas pela Zain Sudão:
| Produto | Preço em libras sudanesas (SDG) | Equivalência aproximada |
|---|---|---|
| Cartão SIM pré-pago na loja Zain | 7 SDG | ~0,13 USD |
| Pacote diário de 250 MB | 333,33 SDG | ~0,55 USD |
| Pacote mensal de 10 GB | 7.801 SDG | ~12,97 USD |
| Pacote mensal de 25 GB | 14.113 SDG | ~23,46 USD |
Um aviso importante sobre esses números: aos preços anunciados é preciso adicionar cerca de 31% de impostos, e a libra sudanesa desvalorizou-se fortemente durante o conflito, de modo que as equivalências em dólares ou euros envelhecem rapidamente. Considere-os como referência de que os dados são baratos, não como tarifa exata.
Os requisitos também importam. Para registrar um SIM, pedirão seu passaporte, e o registro é obrigatório. Além disso, e isso se conecta com o que o Ministério das Relações Exteriores avisa, você terá que pagar tudo em dinheiro: cartões estrangeiros não funcionam em nenhum comércio ou caixa eletrônico do país, então você precisará de moeda para trocar. E o maior problema é a disponibilidade física: em muitas áreas, simplesmente não há lojas de operadoras abertas, nem distribuidores, nem como recarregar saldo. Um SIM barato que você não pode comprar não serve para nada.
Wi-Fi e Starlink: como as pessoas realmente se conectam
Quando a rede móvel deixa de ser confiável, a internet sudanesa se reorganiza em torno do satélite. É o fenômeno mais característico desses anos: diante dos apagões, tanto a população civil quanto as equipes de resposta locais — as chamadas Emergency Response Rooms — se conectam através de terminais Starlink introduzidos informalmente no país.
O modelo se parece bastante com os cibercafés dos anos noventa: alguém tem um terminal, compartilha o Wi-Fi e cobra por hora ou por sessão. Criou-se todo um mercado paralelo em torno desses equipamentos, com preços flutuantes e uma dependência total de que o terminal continue ligado. Em novembro de 2025 houve um apagão do Starlink de cerca de dois dias em nível nacional, coincidindo com a intensificação dos combates em Cordofão e El Fasher, e para muitas comunidades isso significou ficar literalmente incomunicadas.
O que isso significa para você?
- Se você vai com uma organização, sua conexão principal será quase com certeza o link satelital da base, não um cartão de celular.
- Os "wi-fis de hotel" que existem em Port Sudan ou Cartum funcionam quando a rede ou o satélite do edifício funcionam; não conte com largura de banda para videochamadas.
- O aluguer de router wi-fi portátil, tão típico na Ásia, não é uma opção real aqui: não há mercado de pocket wifi nem logística para devolver o aparelho.
- O uso de terminais satelitais tem implicações legais e de segurança. Consulte sempre a sua organização antes de mover um.
Dito de outra forma: o satélite é a única coisa que funciona independentemente da guerra, mas não é algo que se contrata do telemóvel num domingo à tarde.
eSIM: o que resolve e o que não resolve num país em guerra
Vou ser transparente porque é o meu negócio e porque mentir aqui seria especialmente feio. Uma eSIM é um cartão digital que se instala no telemóvel antes de sair de casa e que, ao chegar, se conecta às redes locais do país através de acordos de itinerância. No Sudão, isso significa apoiar-se em Zain, MTN ou Sudani, exatamente as mesmas redes que estão danificadas.
Portanto: uma eSIM não resolve a cobertura. Se estiver numa área de Darfur onde os três operadores estão caídos, não terá dados, nem com eSIM nem com cartão local nem pagando itinerância a preço de ouro. Quem lhe vender o contrário estará a enganá-lo.
O que resolve, e não é pouco neste contexto:
- Zero burocracias à chegada: nada de procurar uma loja aberta, registar o passaporte e negociar em dinheiro com uma divisa que talvez não tenha conseguido trocar.
- Tarifa fechada e paga a partir de Portugal, com cartão, antes de sair. Lembre-se que lá os cartões estrangeiros não são aceites em lado nenhum.
- Preço previsível em comparação com a itinerância por consumo, que é onde aparecem as faturas de pesadelo.
- Redundância: pode levar a eSIM ativa e comprar também um SIM local se o encontrar, usando ambos no mesmo telemóvel.
A minha recomendação sincera: se for estar em Port Sudan, no corredor leste ou em Cartum com deslocamentos, a eSIM faz sentido como linha de apoio barata e sem burocracias. Se o seu destino for o oeste do país, considere-a como um extra e baseie a sua comunicação no satélite da sua organização. Os detalhes concretos de instalação e cobertura estão no guia da eSIM para o Sudão.
Dinheiro, quantos dados levar e o país que foi
Três notas práticas para terminar. A primeira, o dinheiro: no Sudão funciona-se com dinheiro e só com dinheiro. Nenhum cartão estrangeiro serve em comércios ou caixas multibanco, nem mesmo em hotéis internacionais, por isso tudo o que precisar lá — incluindo um SIM local ou pagar horas de wi-fi satelital — sai das notas que levar consigo. Isso faz com que qualquer coisa que possa pagar adiantado a partir de Portugal seja, à partida, uma preocupação a menos.
A segunda, quantos dados contratar. Com conexões lentas e intermitentes, o consumo real costuma ser muito menor do que se pensa:
| Perfil | Uso principal | Dados orientativos |
|---|---|---|
| Cooperante em base com ligação satelital | Mensagens e e-mail fora da base | 1-3 GB por mês |
| Jornalista com deslocamentos | E-mail, fotos comprimidas, algum envio pesado | 5-10 GB |
| Diáspora em visita familiar | Chamadas por app e mensagens | 3-5 GB |
| Trânsito curto ou evacuação | Localização, mensagens, confirmações | 1 GB |
E a terceira, porque acho que merece ser dita. O Sudão alberga as pirâmides de Meroe, do reino de Kush: há mais pirâmides no Sudão do que no Egito, cerca de duzentas espalhadas pelo deserto da Núbia, e são Património Mundial da UNESCO. Até 2023 era um destino minoritário e extraordinário, com muito poucos visitantes e um património arqueológico avassalador. Hoje não é visitável com normalidade e não deve ser planeada nenhuma viagem turística para lá. Conto-o apenas para que fique claro o que está em jogo e o que o país poderia voltar a ser no dia em que isto terminar.
Perguntas frequentes
A internet funciona no Sudão atualmente?
De forma parcial e imprevisível. Há serviço móvel em Port Sudan, partes de Cartum e no leste do país, enquanto vastas áreas de Darfur e Kordofan estão há longos períodos sem cobertura da Zain, MTN nem Sudani. Os cortes podem durar dias ou semanas.
Pode-se viajar para o Sudão como turista?
Não. O Ministério dos Negócios Estrangeiros recomenda não viajar para o Sudão sob nenhuma circunstância. O país está em guerra desde abril de 2023 e qualquer deslocamento interno é considerado extremamente perigoso. Quem viajar apesar disso deve contratar um seguro que cubra países em conflito e inscrever-se no Registo de Viajantes.
Posso pagar um cartão SIM com cartão de crédito?
Não. Os cartões de crédito e débito estrangeiros não são aceites em nenhum estabelecimento ou caixa multibanco do Sudão. Tudo é pago em dinheiro, em libras sudanesas, o que obriga a levar divisa e a trocá-la no local.
Quanto custam os dados móveis no Sudão?
Muito pouco em termos absolutos. A Zain Sudão publica pacotes a partir de 333 SDG por 250 MB diários e cerca de 7.801 SDG por 10 GB mensais, aos quais há que somar cerca de 31% de impostos. O problema não é o preço, mas sim haver rede e lojas abertas.
Uma eSIM serve se a rede local estiver caída?
Não. As eSIM internacionais funcionam por itinerância sobre as redes da Zain, MTN ou Sudani, por isso herdam as suas quedas. Trazem comodidade, tarifa fixa e pagamento a partir de Portugal, mas não criam cobertura onde não há.
Por que razão tanta gente usa Starlink no Sudão?
Porque é a única coisa que funciona quando a rede terrestre falha. Após os apagões, civis e equipas de resposta locais conectam-se através de terminais satelitais introduzidos de forma informal, muitas vezes partilhados como cibercafés. Ainda assim, houve um apagão nacional de Starlink de cerca de dois dias em novembro de 2025.
O roaming gratuito da UE aplica-se no Sudão?
Não, de forma alguma. O Sudão não pertence à UE nem ao EEE, por isso entra nas zonas tarifárias mais caras. Além disso, alguns bónus internacionais portugueses excluem expressamente o Sudão da sua cobertura, deixando-o em tarifa geral por consumo.
O que aconteceu com a rede em fevereiro de 2024?
Foi o maior apagão de telecomunicações do conflito. Ataques contra as sedes da Sudani, Zain e MTN em Cartum deixaram cerca de 30 milhões de pessoas sem conectividade durante quase um mês. O serviço foi recuperado em parte quando a Zain e a Sudani levantaram novos centros de dados em Port Sudan.
Conclusão
Resumo o essencial. O Sudão está em guerra e o Ministério dos Negócios Estrangeiros recomenda não viajar sob nenhuma circunstância: isso vem primeiro, à frente de qualquer consideração técnica. A rede móvel existe mas é frágil e desigual — razoável em Port Sudan, intermitente em Cartum, ausente em boa parte de Darfur e Kordofan —, os dados locais são baratíssimos mas pagam-se em dinheiro e com passaporte, a itinerância portuguesa é cara e por vezes nem sequer é coberta pelos bónus, e o satélite é a única coisa que ultrapassa os apagões.
Se a sua deslocação está decidida e quer chegar com uma linha já ativa, tarifa fechada e sem depender de encontrar uma loja aberta no primeiro dia, pode deixar tudo resolvido antes de sair de Portugal com a eSIM para o Sudão. Com uma condição que repito pela última vez: é um apoio cómodo, não um substituto de um plano de comunicações sério nem uma garantia de cobertura. Num país assim, a honestidade sobre o que uma tecnologia pode e não pode fazer vale mais do que qualquer oferta.







